Amargo

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Perplexa, mais uma vez sentia na garganta o gosto de derrota e cigarro.
Outro trago e de novo a tentativa de sumir com aquele sentimento, fosse escondendo-o lá dentro, no pulmão, fosse soprando fora, bem forte, para que se dissipasse com a fumaça.
Antes envenenar-se de nicotina e acabar-se lentamente do que morrer ali sufocada pela força de sua própria fraqueza.
O sol a ignorou. A euforia da sexta-feira a ignorou. O som do motor foi ficando mais longe e só a esquina sobrou para testemunhar a cena chata, repetida, previsível e com cara de filme que ninguém assiste mais.
Dali para frente as pernas levaram o corpo inerte. A dor, acuada pelas conveniências, fez as vezes de café-da-manhã preenchendo o buraco deixado no estômago.
E o coração?
Sentou-se cansado no meio fio e lá permanece a esperar pacientemente por um reencontro.
26/03/2010 | Da Olivetti 73
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