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Espia!

Aonde você mora? Aonde você foi morar?

Mudar-se da casa dos pais é perder a referência. E não apenas isso. É sermos obrigados a construir novos parâmetros, a nos deparar com a mais pura essência do que somos ou, ao menos, do que achávamos ser até então. Sem filtros, sem colher de chá.

No aconchego de sob as asas paternas (que muitas vezes tomamos como aprisionamento), tudo, em menor ou maior grau, é previsível. Saímos e voltamos todos os dias pelo mesmo caminho, conhecido e seguro. Sabemos onde o sol bate pela manhã, a trempe do fogão que não funciona e como o vidro do porta-retrato em cima da mesinha se partiu. Mais ainda, sabemos exatamente que conselhos receberemos em cada situação e quais serão as reações diante de cada atitude nossa. Isso, embora não tenhamos consciência, é a bússola que nos guia em cada decisão tomada sob aquele teto.

Ali, sabemos a história de todas as pessoas e objetos, testemunhas da nossa vida que cumprem, diariamente, a função de nos contar a nossa própria história.

Mas com o movimento natural da existência, chega o momento de quebramos a casca do ovo. Hora de romper o invólucro que delimitava até onde podíamos ir, de cruzar a linha da zona de conforto.

E nesse novo lugar, nos braços da tão sonhada liberdade, é que nos vemos, de fato, sós pela primeira vez. E não importa se saímos para morar sozinhos, com amigos, outros parentes, em outra cidade ou porque nos casamos. Pesa mais, muito mais, o fato de termos saído e não o motivo pelo qual o fizemos.

Mudar-se da casa dos pais é, literalmente, nascer de novo. É sermos arrancados do acolhimento para um lugar muito maior, mais frio e onde as luzes e os sons são assustadoramente mais intensos. A diferença é que depois que abandonamos o útero e levamos uma palmada da realidade (que nos faz chorar, provando que estamos vivos), não tem colo materno, não tem quem nos alimente ou nos ensine a ficar de pé e a dar os primeiros passos.

Agora é tempo de errar e lidar com reações inéditas diante de nossos erros e acertos. De não ter pra onde correr nas noites de pesadelo. É tempo de ser o que, ironicamente, nunca nos preparamos para ser: nós mesmos.

Comentário(s):

Jéssica escreveu em 26/04/2010 @ 21:14

Florzinha, quanto tempo!
Estou renovando o “Planos e Sonhos”
E claro que não esqueci de você! *-*
BeijoOs! saudades…

Frede (medieval) escreveu em 02/05/2010 @ 22:48

De kbça para kbça

Nú, com acento mesmo rsss, esse foi filosófico hein kbça? Foi um dos melhores até hoje, apesar de eu adorar o seu estilo lírico, esse foi um texto de mais materialidade e menos sonho, um testemunho doloroso de uma experiência para a qual não há preparação. Resumindo adorei e agora realmente sei que minha irmã, aquela menina que me achava um herói, se tornou ela mesma a heroína e não vê mais em mim a capa ou os poderes extra-humanos. Me tornei um cara comum e ela a mulher de caráter e força que eu tanto admiro. Em nome de Deus, São Miguel e São Jorge eu a declara Lady Noele, a mulher, pronta a empunhar sozinha a espada na luta da vida.

Te amo kbçuda.

Paísão escreveu em 04/05/2010 @ 15:31

Todos os dias eu volto prá casa, todos os dias eu volto meus olhos para aquele quarto vazio e dou conta que na verdade ele esta cheio, repleto de lembranças e de boas energias. Lá ainda permanece um perfume que o tempo não leva embora, não me sinto triste, porque todas as vezes que entro naquele quarto sinto a presença de alguem muito especial que foi em busca do seu própio sonho, levou seus pertences, mas deixou a alegria de um sorriso e a certesa de um amor que esta sempre presente no coroção do seu velho pai

filha te amo, que a felicidade seja sua companheira nessa sua nova jornada

Dani escreveu em 06/05/2010 @ 21:38

Bee,

minha irmã, minha bichinho, minha gente bicho! É a vida seguindo seu curso, né?! E você seguindo lindamente o curso de sua vida! Você é água, bee! Clara, FORTE e determinada como a água! E eu sou a margem sempre ao seu lado para quando você precisar se apoiar!

Sempre ao seu lado,
Ray

Sissi escreveu em 24/05/2010 @ 13:52

Nossa, como não conhecia aqui? Amei.

Na inércia não se vive, sem medo não se sente. Adorei.

Bjocas.

Dai escreveu em 26/05/2010 @ 8:29

Que texto mais lindo!
Eu desde criança (mesmo) sempre quis ir morar sozinha, fora da casa dos meus pais, para ter o meu canto, o meu mundo.
Hoje em dia, com quase 21 anos, eu fico pensando no como deve ser difícil, exatamente pelos pontos abordados no seu texto, mas ainda tenho coragem e ainda quero muito :)




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