Janelas e Quintais

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Espia!

Renascença

Imagem: http://beautyineverything.com/4804563640

Uma nova brisa chega mansa e entra pelas frestas da janela com os primeiros raios da manhã. É o anúncio de um tempo mais brando, sim, são as nuvens se dissipando para mostrar que acima tem azul e tem sol, um sol amarelo e quente.

É o pai guerreiro surgindo de trás da lua, cobrindo com seu manto de estrelas-guias o céu da noite. É o céu da noite se transformando em mapa diante dos olhos que se erguem. E nele cada ponto cintilante não é só coordenada, mas o próprio tesouro.

É porta que se abre, com sal grosso à esquerda de quem sai e caminho de flores à direita de quem entra. É tapete de rosas brancas, é atmosfera incensada, leve e perfumada. É benção de Sant’Ana  para  uma nova etapa que começa bem-aventurada. É chuva que cai na terra, é a lama, é a lama, é a vida que brota da lama.

É uma nova casa mental que se constrói de tijolinhos de barro, bem vermelhos e com cheiro de terra molhada.

É rosário de contas coloridas entre negros e calejados dedos. É “Bença, vô. Bença, vó”. É “Deus abençoa, filha”. É amém.

Amém.

E que assim seja.

Quando crescer, quero ser

Não diria que os escritores são “arquitetos da palavra”.

Pelo menos não aqueles a quem leio.

Não, suas palavras não se concretizam em textos.

Nada têm de lineares, sólidas ou funcionais.

Ao contrário, flutuam, transcendem, se metamorfoseiam.

Têm a serventia que lhe atribuem o olhar, o coração e o sentimento dos que as contemplam.

São da ordem dos ventos, da linhagem dos beija-flores.

Não, não cometa o disparate de lhes atribuir essa profissão.

Seu ofício é viver e sentir, escrever a vida e os sentimentos na total plenitude de sua desconstrução.

É isso

Foto: http://www.fotolog.com.br/sonriemeee/81425639

Essa indefinição que insiste e persiste.

É não saber de onde vem.

É inchar tanto, a ponto de sufocar a infinita beleza de tudo.

É o sol que comparece diariamente, mas há dias em que não dá pra ver.

É irônico, egoísta e desnecessário.

É a amnésia, a apatia, a moléstia.

É uma fraqueza que deixa entrar o desequilíbrio.

É a fé escondida, embora seja imensa. (É que o buraco é grande.)

É injusto, feio, antiquado.

É uma alegria melancólica, mesmo assim, verdadeira.

É raro, mas poderia ser único.

É querer demais, eu sei que é gula. (É que gula é pecado.)

Mas apesar de tudo, além de tudo, acima de tudo.

É um tesouro.

É riqueza que não dá pra comprar.

É coisa minha.

Porém… Há sempre um porém.

É a vida nesse meu lugar… É a vida

Chegar e logo partir.

Estar e ao mesmo tempo não estar.

Corpo presente e alma a voar, ausente.

Não saber para onde vou.

E por isso, caminhar, caminhar e não chegar a lugar algum.

Zonza de tanto andar em círculos.

Essa sou eu, indecisa como o quê.

Perdida feito passarinho caído do ninho.

Camélia que caiu do galho e continua viva a suspirar.

Ovelha desgarrada, longe do rebanho.

Esse tem sido meu destino.

Com o acaso sempre a me esperar.

Não vejo a hora, não sei de quê, mas não vejo a hora.

Disso tudo parar, disso tudo passar ou de me acostumar, se for pra ser assim.

Sobre a lua e o mundo que há em mim

Foto: http://www.fotolog.com.br/jolie_nostalgie

A lua mostrou só metade por detrás do morro. Veio me entender.

O que sinto hoje as palavras não dizem. Desde que acordei, agita-se vertiginosamente a mistura que há mim.

É que noite passada tive um pesadelo. Pesadelo é o sonho com casca e tudo, vem bruto, áspero, pesado.

Confundem-se neste dia a vontade, a raiva, o medo e as vergonhas. Então tive o impulso de finalmente fazer minha lista dos desejos… E mais uma vez o suprimi.

É tanto querer, que acaba sendo ganância. Prefiro não ter.

Quero é que “me deixem bicho acuado”, preciso cada vez mais de dentro de mim. Esse sim deve ser o mundo da minha busca, o mundo que há mim.

Aonde você mora? Aonde você foi morar?

Mudar-se da casa dos pais é perder a referência. E não apenas isso. É sermos obrigados a construir novos parâmetros, a nos deparar com a mais pura essência do que somos ou, ao menos, do que achávamos ser até então. Sem filtros, sem colher de chá.

No aconchego de sob as asas paternas (que muitas vezes tomamos como aprisionamento), tudo, em menor ou maior grau, é previsível. Saímos e voltamos todos os dias pelo mesmo caminho, conhecido e seguro. Sabemos onde o sol bate pela manhã, a trempe do fogão que não funciona e como o vidro do porta-retrato em cima da mesinha se partiu. Mais ainda, sabemos exatamente que conselhos receberemos em cada situação e quais serão as reações diante de cada atitude nossa. Isso, embora não tenhamos consciência, é a bússola que nos guia em cada decisão tomada sob aquele teto.

Ali, sabemos a história de todas as pessoas e objetos, testemunhas da nossa vida que cumprem, diariamente, a função de nos contar a nossa própria história.

Mas com o movimento natural da existência, chega o momento de quebramos a casca do ovo. Hora de romper o invólucro que delimitava até onde podíamos ir, de cruzar a linha da zona de conforto.

E nesse novo lugar, nos braços da tão sonhada liberdade, é que nos vemos, de fato, sós pela primeira vez. E não importa se saímos para morar sozinhos, com amigos, outros parentes, em outra cidade ou porque nos casamos. Pesa mais, muito mais, o fato de termos saído e não o motivo pelo qual o fizemos.

Mudar-se da casa dos pais é, literalmente, nascer de novo. É sermos arrancados do acolhimento para um lugar muito maior, mais frio e onde as luzes e os sons são assustadoramente mais intensos. A diferença é que depois que abandonamos o útero e levamos uma palmada da realidade (que nos faz chorar, provando que estamos vivos), não tem colo materno, não tem quem nos alimente ou nos ensine a ficar de pé e a dar os primeiros passos.

Agora é tempo de errar e lidar com reações inéditas diante de nossos erros e acertos. De não ter pra onde correr nas noites de pesadelo. É tempo de ser o que, ironicamente, nunca nos preparamos para ser: nós mesmos.

Quem é mesmo o dono de quem?

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Lavras Novas (MG) – Foto: Túlio Araújo

حب Amur Love Liebe 愛 אהבה Amore

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Amor.

Amargo

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Foto: http://www.fotolog.com.br/cuentodepaapel/72009893

Perplexa, mais uma vez sentia na garganta o gosto de derrota e cigarro.

Outro trago e de novo a tentativa de sumir com aquele sentimento, fosse escondendo-o lá dentro, no pulmão, fosse soprando fora, bem forte, para que se dissipasse com a fumaça.

Antes envenenar-se de nicotina e acabar-se lentamente do que morrer ali sufocada pela força de sua própria fraqueza.

O sol a ignorou. A euforia da sexta-feira a ignorou. O som do motor foi ficando mais longe e só a esquina sobrou para testemunhar a cena chata, repetida, previsível e com cara de filme que ninguém assiste mais.

Dali para frente as pernas levaram o corpo inerte. A dor, acuada pelas conveniências, fez as vezes de café-da-manhã preenchendo o buraco deixado no estômago.

E o coração?

Sentou-se cansado no meio fio e lá permanece a esperar pacientemente por um reencontro.

Tudo isso me faria feliz. Absurdos me fariam feliz.

1268849033650_fFoto: http://www.fotolog.com.br/moncoeur

- Fazer curso de corte e costura;

- Trabalhar em uma floricultura ou banca de frutas no Mercado Central;

- Passar uma semana na casa da minha tia no interior, com direito a missa de domingo e quermesse na praça;

- Comer algodão doce no parque municipal às 3 da tarde;

- Visitar minha única tia-avó viva em sua casa quase centenária e tomar café com o bolo de nozes incrível que ela faz;

- Passar o fim de semana pintando as paredes da minha casa. Uma de cada cor;

- Adotar um cachorro e batizá-lo de Januário;

- Entrar em todas as lojas da Galeria do Ouvidor, comprar uma peça em cada uma e depois montar bijous improváveis;

- Voltar pro balé, só que na turma infantil;

- Trabalhar em uma biblioteca;

- Trabalhar na biblioteca onde uma linda amiga de outras vidas trabalha e poder passar horas por dia com ela;

- Fazer o curso de Letras na Federal. De manhã;

- Nadar na piscina do colégio onde cursei o primeiro grau;

- Encontrar alguém que me conheceu na infância, que eu não me lembre e que me conte coisas sobre mim que não sei;

- Fazer um almoço de páscoa em um lar de idosos com direito a bacalhoada, mesa de carteado e bailinho ao som da vitrola tocando vinis;

- Visitar a França tendo minha mãe como guia turístico;

- Passar um dia inteiro só agindo, sem pensar;

- Passar um dia inteiro só pensando;

- Convencer todas as pessoas que eu amo a morar na mesma rua;

- Ter sessão de análise de segunda a sexta;

- Trabalhar em um antiquário e brechó;

- Ler um livro inteiro num banco de praça;

- Percorrer o nordeste inteiro de carro com ele;

- Abraçar o mundo com as pernas;

- Conseguir realizar pelo menos uma dessas coisas.